Revista GAC

PFAS na agricultura brasileira: implicações ambientais e alternativas sustentáveis

revista GAC

Juliana Aparecida Galhardi1 (juliana.galhardi@arcadis.com), Leandro Oliveira1, Flávia Belloni1, Jaqueline Siquitelli1, Theresa Guillette2, Raoni Azevedo1, Karin Guiguer1

1. Arcadis, São Paulo, Brasil, 2. Arcadis, Texas, Estados Unidos.

Resumo

Os compostos per- e polifluoroalquil (PFAS) são químicos sintéticos persistentes encontrados em formulações de pesticidas, fertilizantes e biossólidos agrícolas. No Brasil, a sulfluramida (EtFOSA), inseticida à base de PFAS, é amplamente utilizada no controle de formigas cortadeiras, degradando-se em PFOS, um contaminante bioacumulativo e altamente persistente no meio. Este estudo avaliou as implicações ambientais do uso da sulfluramida na agricultura brasileira e, como alternativa sustentável, analisou a deltametrina, um piretroide sintético, como possível substituto. Um estudo de caso em região de produção vegetal no Amazonas resultou na elaboração de um plano de ação para um monitoramento ambiental abrangente e escalável, visando uma produção agrícola e silvícola sustentável. Os resultados destacam a necessidade de estratégias integradas de gestão ambiental para mitigar impactos e fortalecer políticas regulatórias, protegendo ecossistemas sensíveis e garantindo a segurança alimentar e a proteção da biodiversidade.

Palavras-chave: PFAS, Sulfluramida, Modelos Conceituais, Investigação, Sustentabilidade.

Abstract

Per- and polyfluoroalkyl substances (PFAS) are persistent synthetic chemicals found in formulations of pesticides, fertilizers, and agricultural biosolids. In Brazil, sulfluramid (EtFOSA), a PFAS-based insecticide, is widely used for controlling leaf-cutting ants, degrading into PFOS, a bioaccumulative and highly persistent environmental contaminant. This study evaluated the environmental implications of sulfluramid use in Brazilian agriculture and, as a sustainable alternative, analyzed deltamethrin, a synthetic pyrethroid, as a potential substitute. A case study conducted in a crop production region in the Amazonas led to the development of an action plan for comprehensive and scalable environmental monitoring aimed at fostering sustainable agricultural and forestry production. The results highlight the need for integrated environmental management strategies to mitigate impacts and strengthen regulatory policies, protecting sensitive ecosystems while ensuring food security and biodiversity conservation.

Keywords: PFAS, Sulfluramid, Conceptual Models, Investigation, Sustainability.

1. Introdução

As substâncias per- e polifluoroalquílicas (PFAS) referem-se a uma ampla classe de compostos químicos sintéticos caracterizados por cadeias de carbono totalmente (per-) ou parcialmente (poli-) fluoradas. A presença da ligação carbono-flúor (C-F), uma das mais fortes da química (covalente), confere aos PFAS propriedades singulares, como alta estabilidade térmica e química, hidrofobicidade e lipofilicidade. Essas características levaram ao seu uso extensivo, desde a década de 1940, em diversas aplicações industriais. No entanto, essa ampla utilização, aliada à sua persistência no ambiente, tem gerado crescente preocupação quanto aos seus impactos ambientais e à saúde humana, especialmente diante de exposições prolongadas. Estudos demonstram que a presença de PFAS na água, no sedimento, no solo e nos alimentos pode resultar em bioacumulação e toxicidade para diferentes organismos, incluindo humanos (BELL et al., 2021; EHSAN et al., 2024).

Dentre os compostos da classe PFAS, destaca-se o perfluorooctano sulfonato (PFOS), um dos mais investigados devido à sua ampla detecção em diversas matrizes ambientais, incluindo em insumos agrícolas. O uso de PFOS e outros PFAS na agricultura é especialmente preocupante, pois esses compostos podem contaminar solos, cultivos, cursos hídricos superficiais e águas subterrâneas, comprometendo a qualidade ambiental e a segurança alimentar. A introdução desses contaminantes nos sistemas agrícolas pode ocorrer de forma direta, por meio da aplicação de pesticidas, ou de maneira indireta, através do uso de biossólidos ou fertilizantes que contêm essas substâncias como resíduos. Estudos indicam que a contaminação de solos agrícolas por PFAS pode resultar em sua absorção por culturas alimentares, representando um risco significativo para consumidores e ecossistemas (ESPARTERO et al., 2022) e atingindo vários níveis de cadeias tróficas (LIU et al., 2025; LEE et al., 2025).

No Brasil, a presença de PFAS nos insumos agrícolas vem recebendo maior preocupação. O maior foco vem sendo destinado à sulfluramida (EtFOSA), um inseticida à base de PFAS amplamente utilizado para o controle de formigas cortadeiras dos gêneros Atta e Acromyrmex. A sulfluramida é produzida a partir do perfluorooctano sulfonil fluoreto (PFOSF), um precursor do PFOS, listado como poluente orgânico persistente (POP) no anexo B da Convenção de Estocolmo em 2009 devido ao seu potencial de bioacumulação e de causar efeitos nocivos à saúde. No ambiente, a sulfluramida pode ser degradada, levando à formação de PFOS, o que agrava seu risco ecológico (NASCIMENTO et al., 2018; GUIDA et al., 2023). Embora o Brasil seja signatário da Convenção de Estocolmo, o país obteve uma isenção para continuar a produção e o uso de sulfluramida devido à falta de um substituto de igual viabilidade técnica e financeira. Porém, esse pesticida é amplamente aplicado em sistemas de produção vegetal, incluindo em biomas sensíveis, como a Amazônia, o que vem gerando preocupações entre cientistas e órgãos reguladores devido aos possíveis impactos na biodiversidade e na segurança alimentar (GILLJAM et al., 2016).

A pesquisa sobre o uso de PFOS na agricultura e suas implicações no gerenciamento de áreas contaminadas é crucial para o desenvolvimento de estratégias de monitoramento e controle mais eficazes, a fim de proteger tanto o ambiente quanto a saúde pública. O gerenciamento de áreas contaminadas por EtFOSA e outros PFAS em regiões agrícolas pode exigir a aplicação de modelos conceituais específicos, dada a complexidade e a extensão dessas áreas. Diferentemente de contaminações localizadas, como em áreas industriais, as contaminações agrícolas podem abranger vastas superfícies, exigindo abordagens escaláveis e metodologias que considerem a dispersão dos contaminantes em meios complexos. Além disso, a presença de múltiplas formações geológicas, aquíferos interconectados e bacias hidrográficas pode influenciar significativamente o transporte e a mobilidade dos PFAS, dificultando a delimitação das plumas de contaminação e a definição de estratégias eficazes de remediação.

Diante deste cenário, torna-se essencial o desenvolvimento de protocolos adaptados às particularidades de áreas rurais afetadas, assegurando um monitoramento contínuo e estratégias de mitigação que reduzam os impactos ambientais e protejam a qualidade dos recursos hídricos e do solo. Associado a uma gestão eficiente de PFAS, no campo da agricultura, é imprescindível o estudo de soluções tecnicamente e ecologicamente viáveis como substitutos à sulfluramida.

Visando contribuir com uma transição sustentável e segura para uma agricultura livre de PFAS no Brasil, este artigo tem como principal objetivo analisar o impacto do uso dessas substâncias na agricultura brasileira, abordando suas fontes, consequências para a gestão de áreas contaminadas, com foco na investigação ambiental, e a busca por alternativas mais sustentáveis. Um estudo de caso sobre o uso da sulfluramida em uma área de produção vegetal no Amazonas foi utilizado como modelo para a elaboração de um plano de ação visando a transição para uma produção agrícola e silvícola mais segura e sustentável. Este plano incluiu a criação de programas de monitoramento para PFAS e a avaliação de um potencial substituto à sulfluramida.

2. Fontes de PFAS na agricultura e implicações ambientais

Os PFAS são uma classe de milhares de compostos químicos sintéticos amplamente utilizados em diversas aplicações industriais e comerciais. A estrutura molecular dos PFAS apresenta cadeias perfluoradas hidrofóbicas, enquanto determinados grupos funcionais, como ácidos carboxílicos e sulfonatos perfluorados, conferem caráter hidrofílico (Figura 1). Essa dualidade faz com que os PFAS atuem como surfactantes potentes, reduzindo a tensão interfacial e permitindo sua aplicação em uma ampla variedade de produtos. Além disso, estas substâncias apresentam estabilidade térmica e química excepcional, tornando-os altamente persistentes no ambiente e resistentes a processos naturais de degradação.

Figura 1: Estrutura química geral dos PFAS.
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Além dos PFAS mais comumente detectados no ambiente, como o PFOA (ácido perfluorooctanoico) e o PFOS (perfluorooctano sulfonato), dois tipos de PFAAs (ácidos perfluoroalquilados), existem os precursores fluorados, que podem se degradar e formar PFAAs no ambiente, aumentando a contaminação secundária e os efeitos nocivos à saúde de organismos (GUIDA et al., 2023). A exposição humana a estas substâncias pode ocorrer principalmente através da ingestão de alimentos contaminados e do consumo de água potável contendo esses compostos (NASCIMENTO et al., 2018). Em sistemas ambientais e agrícolas, os riscos de contaminação são amplificados devido à alta mobilidade dos PFAS no meio, podendo ser transportados dos solos para corpos d’água superficiais e subterrâneos.

A Figura 2 apresenta duas das principais fontes de PFAS em áreas de produção agrícola e alguns dos processos que estas substâncias sofrem uma vez liberadas no ambiente.

Figura 2: Fontes potenciais de PFAS na agricultura e efeitos no ambiente.
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Uma fonte potencial de PFAS para solos agrícolas inclui o EtFOSA, conhecido como sulfluramida. Trata-se de um precursor relevante do PFOS, sendo amplamente utilizado no Brasil como ingrediente ativo de iscas para controle de formigas cortadeiras (TORRES et al., 2022). A sulfluramida, ao ser aplicada no solo, sofre degradação por vias biológicas e abióticas, originando compostos intermediários, como o ácido perfluorooctano sulfonamida acético (FOSAA) e a perfluorooctano sulfonamida (FOSA), os quais podem eventualmente se biotransformarem em PFOS, altamente persistente e bioacumulativo (ZABALETA et al., 2018).

As transformações de precursores para PFOS ocorrem com diferentes rendimentos. Por exemplo, estudos apontam que, em solos agrícolas brasileiros (ultissolo e latossolo), a conversão da sulfluramida em PFOS pode alcançar 30% após 120 dias, demonstrando sua relevância como fonte secundária de contaminação (GUIDA et al., 2023). Em um outro estudo, a presença de cenouras em experimentos em mesocosmos aumentou significativamente a conversão de EtFOSA em PFOS, atingindo até 277% ao utilizar uma formulação comercial (ZABALETA et al., 2018).

Estudos indicam ainda que a produção de EtFOSA no Brasil entre 2010 e 2018 foi de 40 t por ano, o que pode ter levado à emissão de até 616 t de PFOS em solos brasileiros (TORRES et al., 2022). A contaminação pode ser agravada considerando-se a alta mobilidade dessas substâncias no meio, que pode variar conforme as características do solo, como pH, teor de matéria orgânica e atividade microbiana, influenciando também a taxa de conversão da sulfluramida em PFOS (GUIDA et al., 2023). Essa taxa de conversão, por sua vez, pode ser amplificada pela presença de vegetação nas áreas rurais, aumentando a biodisponibilidade e risco de contaminação por PFOS na cadeia alimentar (ZABALETA et al., 2018).

Modelos preveem que o EtFOSA se distribua predominantemente no solo, mas seus produtos de degradação, como PFOS, sendo altamente móveis, podem migrar para as águas superficiais e subterrâneas. Este comportamento é confirmado por medições realizadas em diversas amostras de águas no Brasil, onde concentrações consideráveis de PFOS foram detectadas (STEFANO et al., 2022). O transporte de PFOS e FOSA para os sedimentos marinhos foi também verificado, o que pode resultar em impactos a longo prazo para a biota aquática e para as cadeias alimentares locais (GILLJAM et al., 2016).

Embora as concentrações de PFAS no ambiente em muitas regiões do Brasil sejam ainda desconhecidas, esses compostos estão sendo detectados de forma generalizada em todos os estudos realizados (TORRES et al., 2022), o que gera preocupações sobre impactos ecológicos. Dessa forma, a presença desses compostos em solos, sedimentos e na biota evidencia a ampla disseminação dos PFAS nos ecossistemas, ultrapassando os limites das áreas de aplicação (GILLJAM et al., 2016). O Brasil, sendo um dos poucos países que ainda produzem e exportam sulfluramida, enfrenta, portanto, grandes desafios quanto à regulamentação e ao controle destes PFAS (UNEP, 2016), requerendo estratégias mais eficazes para mitigar os impactos ambientais e sanitários desses poluentes.

Uma fonte adicional de contaminação por PFAS na agricultura é o uso de biossólidos, que são lodos de esgoto tratados e aplicados ao solo como fertilizantes orgânicos. Embora essa prática seja econômica e eficaz para reposição de nutrientes no solo, os biossólidos podem conter quantidades significativas de PFAS, entre os quais destacam-se os PFAAs, como o PFOS e PFOA (ITRC, 2020). Estudos indicam que PFAAs de cadeia curta (< C7) presentes em biossólidos agrícolas podem contaminar alimentos (HAMID et al., 2018). Além disso, a aplicação repetida desses materiais pode levar ao acúmulo de PFAS nas camadas superficiais do solo, permitindo sua lixiviação para aquíferos. No âmbito ecológico, os PFAS presentes nos biossólidos podem atingir níveis preocupantes, representando riscos para a biodiversidade e para o equilíbrio dos ecossistemas naturais (ITRC, 2020).

Devido à crescente preocupação global com a contaminação por PFAS em solos e culturas agrícolas, essa área tem sido foco de intensa pesquisa. Embora alguns estudos sugiram que certos PFAS possam ser absorvidos pelas plantas, ainda existem lacunas significativas no entendimento dos mecanismos de transporte dessas substâncias no ambiente e sua absorção pelas plantas, especialmente em áreas afetadas pela aplicação de insumos agrícolas contaminados. No entanto, as consequências dessa contaminação estão sendo cada vez mais documentadas, o que torna urgente fortalecer os programas de monitoramento e gerenciamento de PFAS.

3. Panorama legal para o gerenciamento de PFAS no Brasil

Com o entendimento de seus riscos à saúde humana, diversos países estabeleceram normas para regular o uso de PFAS (Figura 3), com PFOA e PFOS representando os compostos mais restritos e regulamentados. Conforme a pesquisa avança e o impacto completo dessas substâncias é mais bem compreendido, espera-se que a regulamentação dos PFAS se torne mais rigorosa e abrangente – incluindo no cenário brasileiro.

A preocupação com os impactos dos PFAS na saúde aumentou a partir dos anos 2000, quando estudos científicos confirmaram sua presença no ambiente e sua bioacumulação. Na década de 2010, o avanço nas técnicas analíticas permitiu compreender melhor o comportamento ambiental dessas substâncias, embasando decisões regulatórias mais rigorosas. A partir de 2020, a regulamentação expandiu-se para uma gama maior de PFAS, incluindo compostos substitutos que também representam riscos. A regulamentação em classe, ao invés de compostos individuais, está ganhando força, e novos limites estão sendo fixados (exemplo dado pela Diretiva (EU) 2020/2184 do Parlamento Europeu e do Conselho). Além disso, algumas instituições regulatórias estão definindo metas baseadas em tratamento, visando reduzir ao máximo os níveis de PFAS utilizando tecnologias avançadas de remoção (exemplo dado pela National Primary Drinking Water Regulation, nos Estados Unidos).

Figura 3: Alguns marcos legais da regulamentação de PFAS. Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

No Brasil, ao longo dos anos, a legislação sobre os POPs, incluindo os PFAS, tem se fortalecido, especialmente após o país ter se tornado signatário da Convenção de Estocolmo em 2001. A Resolução CONAMA 430/2011 (BRASIL, 2011) proíbe o lançamento de POPs em efluentes. No estado de São Paulo, em 2023, a CETESB intensificou o monitoramento dos PFAS, adicionando alguns analitos às planilhas de avaliação de risco à saúde humana e utilizando valores da US EPA para substâncias não reguladas. Mais recentemente, a norma NBR 10.004:2024 (ABNT, 2024) incluiu alguns PFAS na caracterização de resíduos perigosos, enquanto o CONAMA 499/2020 (BRASIL, 2020) fixava limites para PFOS. Essas iniciativas demonstram avanços significativos na proteção ambiental e na saúde pública no Brasil, alinhando-se a padrões e tendências internacionais. Elas indicam que, no curto, médio e longo prazo, podem ser previstas mudanças no cenário regulatório do país, abrangendo áreas como resíduos, água potável, águas superficiais e subterrâneas, solo e alimentos.

No âmbito da agricultura, o uso contínuo da sulfluramida no Brasil levanta implicações legais, especialmente diante do banimento global dos PFAS. A crescente pressão internacional pode exigir revisão regulatória, considerando os compromissos ambientais do país. Além da possibilidade de restrições legais futuras, a manutenção do uso da sulfluramida pode comprometer a reputação do Brasil no mercado agrícola e silvícola global, dificultando negociações comerciais e atração de investimentos em setores que priorizam práticas sustentáveis. Ademais, a presença de PFOS em matrizes ambientais reforça a necessidade urgente de um monitoramento contínuo da contaminação por PFAS em áreas agrícolas, de pastagem e reflorestamento. Diante desse cenário, é essencial que as entidades brasileiras se antecipem às tendências internacionais e avaliem alternativas viáveis para a substituição da sulfluramida. A implementação de um plano gradual de transição para produtos menos persistentes pode ser uma solução estratégica para evitar litígios e garantir conformidade com as normativas ambientais emergentes globalmente.

4. Investigação e modelos conceituais de áreas afetadas por PFAS

A gestão de áreas contaminadas por PFAS no Brasil enfrenta amplos desafios, como a própria ausência de regulamentações específicas para essas substâncias e de um programa de monitoramento regional. A contaminação ambiental pela sulfluramida exige estratégias que considerem a vasta extensão e diversidade territorial impactada e a presença de múltiplas fontes poluentes, incluindo efluentes agrícolas, urbanos e industriais. É importante ainda considerar o comportamento químico dos PFAS nestes ambientes complexos. Por exemplo, por serem altamente móveis, os PFAS podem ser transportados por águas contaminadas, resultando no acúmulo em áreas costeiras. Nesses locais, eles podem ser aerosolizados pelo spray marinho, alcançando regiões muito além de suas áreas de origem, como evidenciado pelo transporte de PFOA para regiões remotas da Amazônia (KOURTCHEV et al., 2024). No subsolo, a complexidade das plumas contaminantes potencialmente interconectadas, distribuídas em diferentes profundidades e compostas por precursores químicos de difícil caracterização, demanda também abordagens técnicas avançadas para mitigação dos impactos ambientais.

Diante desse cenário, abordagens meticulosas e metodologias adaptativas são essenciais para mapear a dispersão dos contaminantes, avaliar riscos e definir estratégias de controle ajustadas às particularidades regionais, garantindo uma resposta eficaz à contaminação ambiental. Os modelos conceituais são fundamentais nesse processo, pois permitem integrar dados sobre a presença e mobilidade de PFAS em solos cultiváveis e florestais, orientando decisões sobre gerenciamento e remediação. Os principais elementos desses modelos estão descritos na Figura 4, dentre os quais destacam-se as fontes de contaminação, rotas de transporte de PFAS por meio de águas subterrâneas, superficiais, solos e sedimentos, mecanismos de transferência desses compostos para a biota, além de impactos potenciais sobre ecossistemas. Nesse sentido, a investigação de áreas contaminadas por PFAS também exige abordagens técnicas específicas, tais como a quantificação da carga de massa dos contaminantes em diferentes matrizes ambientais, o que permite a priorização de áreas para remediação e controle, enquanto modelos estratigráficos possibilitam a visualização detalhada das trajetórias de migração.

Figura 4: Fatores a serem considerados para a elaboração de Modelos Conceituais e para a investigação de áreas rurais contaminadas por PFAS.
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Em áreas agrícolas e silviculturais, devem ser considerados como fontes primordiais o uso de sulfluramida e a aplicação de fertilizantes contaminados. O transporte desses compostos pode ocorrer por meio da dispersão no solo, migração para águas subterrâneas e superficiais, sedimentos e redistribuição via irrigação, além de outras vias. Devido às particularidades regionais e às mudanças constantes no uso e ocupação do solo, além das variações nas práticas agrícolas adotadas, a construção desses modelos de dispersão e comportamento dos PFAS deve ser um processo contínuo. Isso envolve revisões periódicas baseadas em dados de monitoramento atualizados, de forma a refletir a dinâmica desses contaminantes no ambiente e garantir a precisão na gestão dos riscos.

As metodologias utilizadas para a investigação de PFAS em áreas rurais e florestais podem incluir o desenvolvimento de modelos conceituais digitais, que facilitam a integração de dados espaciais e a visualização tridimensional dos cenários investigados. Essas ferramentas aprimoram a compreensão sobre a distribuição e dinâmica dos contaminantes, melhorando a comunicação entre os envolvidos e otimizando o processo de tomada de decisão. Além disso, métodos forenses desempenham um papel essencial na distinção entre fontes conhecidas e concentrações de fundo, permitindo a identificação de múltiplos aportes de PFAS com perfis distintos e ajudando a entender sua origem e comportamento.

Diante da complexidade desses cenários, é fundamental aprimorar as diretrizes investigativas e implementar modelos conceituais dinâmicos que possibilitem uma caracterização precisa das áreas impactadas por PFAS. A adoção de metodologias científicas rigorosas, juntamente com o fortalecimento da regulamentação ambiental no Brasil, será essencial para viabilizar estratégias eficazes de controle e remediação, assegurando a proteção da qualidade dos recursos naturais e a saúde pública.

5. Alternativas sustentáveis para PFAS na agricultura

A produção agrícola no Brasil enfrenta desafios significativos com o uso de compostos como EtFOSA e PFOS, especialmente devido à limitação das alternativas em termos de viabilidade técnica e financeira, e da ausência de programas nacionais de monitoramento ambiental, somado com a ausência de limites regulatórios específicos para PFAS em solos e águas. Esse cenário intensifica as preocupações com a contaminação ambiental a partir de fontes agrícolas e seus impactos na saúde pública. Diante disso, a deltametrina (Figura 5), um inseticida da família dos piretroides, surge como uma possível alternativa à sulfluramida, oferecendo eficácia no controle de pragas com menor persistência e menor risco de contaminação. A deltametrina é um piretroide sintético (tipo II; fórmula química C22H19Br2NO3) baseada na estrutura química e na atividade biológica do piretro, um extrato de plantas do gênero Chrysanthemum, sendo um inseticida de amplo espectro.

A deltametrina ativa (Figura 5) é um dos piretroides mais eficazes, caracterizado por baixa toxicidade para os seres humanos (AIELLO et al., 2021). Estes piretroides sintéticos estão substituindo rapidamente os pesticidas convencionais, como organoclorados, organofosforados e carbamatos, especialmente devido à sua baixa persistência ambiental e toxicidade para mamíferos (MADIHA et al., 2013). Dado esses fatores, a Organização Mundial da Saúde recomenda o uso destas substâncias para a mitigação de doenças transmitidas por vetores (OMS, 2017).

Figura 5: Estrutura química dos piretroides (à esquerda) e da deltametrina ativa (à direita).
Fonte: Aiello et al., (2021).

No ambiente, a deltametrina apresenta grande preferência por matéria orgânica em comparação com a fase aquosa, com um coeficiente de partição octanol/água (log Kow) de 6,2 e solubilidade em água inferior a 0,002 mg/L a 25°C. Como um composto lipofílico, a deltametrina é altamente estável no ambiente físico, apresentando baixa taxa de migração para águas subterrâneas. Em condições não controladas de laboratório, sua meia-vida estimada no solo é de aproximadamente 15,5 dias (ORTIZ-PÉREZ et al., 2005). Quando degradada, seu principal metabólito inclui o ácido 3-fenoxibenzoico (3-PBA) (AIELLO et al., 2021).

Embora a deltametrina tenha baixa toxicidade para aves e mamíferos, ao atingir as águas superficiais, tanto ela quanto o 3-PBA podem ser tóxicos para peixes e organismos bentônicos (MUELLER, 1990). Por esse motivo, a deltametrina deve ser utilizada com cautela nas proximidades de corpos d’água, a fim de se evitar seu escoamento e lixiviação para recursos hídricos (CHAVES et al., 2020).

De forma geral, considerando fatores como mobilidade, persistência e toxicidade, a deltametrina apresenta menor risco para a saúde humana quando comparada com formulações de sulfluramida. No entanto, devido à escassez de dados sobre o destino e os efeitos dos metabólitos comuns da deltametrina em organismos vivos, bem como à ausência de regulamentação federal estabelecendo os níveis máximos de deltametrina em águas potáveis ou para proteção de águas superficiais, torna-se essencial o monitoramento contínuo da deltametrina e de seu metabólito 3-PBA, de forma a assegurar a proteção da saúde humana e ambiental, especialmente considerando seu uso como substituto da sulfluramida no manejo agrícola e florestal.

No entanto, apesar de haver alternativas para a sulfluramida, o mercado brasileiro ainda resiste ao uso destas formulações, principalmente pelas diferenças de mecanismos de ação – a deltametrina, por exemplo, apresenta ação de contato rápida, o que leva a um menor efeito residual em campo, quando comparado com as iscas de sulfluramida (BRITTO et al., 2016). Estes critérios, entretanto, desconsideram fatores cruciais de sustentabilidade, impacto ambiental e preservação da vida. Além disso, os usuários desconsideram as mudanças regulamentárias globais que visam o banimento dos PFAS, o que pode afetar significativamente a viabilidade da aplicação continuada da sulfluramida no Brasil em curto prazo.

Apesar desse cenário, espera-se que o uso da deltametrina e de inseticidas piretroides aumente nos próximos períodos. Em 2024, o mercado de piretroides no mundo representou US$ 3,89 bilhões, com uma projeção para US$ 5,22 bilhões em 2029, conforme o Pyrethroids Global Market Report 2025 (THE BUSINESS RESEARCH COMPANY, 2025). Esses produtos têm um impacto ambiental significativamente menor em comparação com pesticidas à base de PFAS, apresentam maior biodegradabilidade e causam efeitos reduzidos sobre organismos não-alvos. Isso contribui para uma agricultura mais sustentável e para uma economia livre de PFAS, alinhada com as metas globais de sustentabilidade, especialmente o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 da Organização das Nações Unidas, que visa garantir a segurança alimentar e promover a agricultura sustentável.

6. Estudo de caso: EtFOSA em área de silvicultura na Amazônia

A presença de PFAS, como o EtFOSA, precursor do PFOS, tem sido amplamente documentada em áreas de produção vegetal devido à sua persistência, mobilidade e potencial de bioacumulação. O monitoramento contínuo dessas substâncias é necessário para compreender seus impactos no ambiente e na saúde humana. Dado que alguns PFAS possuem alta persistência e afinidade com matéria orgânica, é essencial investigar possíveis reservatórios, como sedimentos, que podem ser fontes de longo prazo de contaminação. Na Amazônia, onde práticas agrícolas e florestais coexistem, o monitoramento de EtFOSA se torna essencial para avaliar os riscos ambientais e estabelecer estratégias eficientes de proteção do bioma. Este estudo de caso avaliou a presença de sulfluramida em uma área florestal na Amazônia com histórico de aplicação de sulfluramida, propondo um plano de ação para um monitoramento ambiental abrangente e escalável.

Inicialmente, para avaliar a presença de PFAS nas águas e sedimentos locais, propôs-se a análise de 29 analitos de PFAS, incluindo EtFOSA e PFOS, em águas superficiais e nos respectivos sedimentos localizados a jusante de áreas identificadas como pontos críticos de contaminação. Essa análise visou investigar possível transporte desses compostos do solo para as águas superficiais e sua eventual acumulação nos sedimentos. Caso os testes resultassem na quantificação desses elementos no corpo hídrico, a recomendação seria a inclusão de PFAS no escopo analítico dos programas de monitoramento propostos no plano de ação. Se os resultados indicassem ausência destes compostos para todos os pontos, considerando limites de reporte ecologicamente relevantes, não seria necessário o monitoramento ou investigação adicional, assumindo-se que não haveria lixiviação significativa de PFAS para águas subterrâneas ou superficiais.

O plano de ação desenvolvido consiste em um programa de monitoramento ambiental operacional, com um escopo analítico flexível para incorporar novos ingredientes ativos, tendo em vista a eliminação imediata da sulfluramida nas operações e promovendo sua substituição por práticas mais sustentáveis. O programa, escalável para diferentes áreas de produção vegetal, é dividido em: Programa de Monitoramento Semestral (PMS), referente à amostragem semestral de sedimentos e águas superficiais (períodos seco e chuvoso); e Programa de Monitoramento Direcionado (PMD), ou trimestral, referente à amostragem adicional de água superficial e/ou sedimentos quando forem detectadas concentrações de pesticidas acima dos valores recomendados no PMS (valores estabelecidos na literatura nacional e internacional para a proteção da saúde humana e da vida aquática; para a deltametrina, o valor considerado foi de 0.0004 µg/L, segundo o Canadian Water Quality Guidelines for the Protection of Aquatic Life (1999)). O plano prevê ainda a realização de uma campanha de amostragem antes da aplicação dos pesticidas em cada área, para estabelecer uma linha de base das concentrações desses compostos, além dos parâmetros químicos e físico-químicos das águas e dos sedimentos, como forma de detectar possíveis alterações nas características do meio que se relacionem com o comportamento dos contaminantes.

O PMS visa acompanhar a qualidade da água superficial e dos sedimentos, sendo possível verificar se os pesticidas estão sendo transportados para os rios e acumulados nos sedimentos, representando uma fonte de contaminação de longo prazo para os recursos hídricos. A frequência de amostragem prevista é semestral, a partir da aplicação dos pesticidas em campo, durante os períodos seco e chuvoso, seguindo o calendário agrícola em que esses compostos são utilizados. O escopo analítico deste programa, descrito na Tabela 1, inclui parâmetros físico-químicos in situ, escopo completo da Resolução CONAMA nº 357/05 (BRASIL, 2005), além da quantificação de resíduos dos ingredientes ativos utilizados e de seus principais metabólitos. Para os sedimentos, é proposta a determinação dessas mesmas substâncias, além dos parâmetros definidos pela Resolução CONAMA nº 454/2012 (BRASIL, 2012), pH e granulometria. Caso duas campanhas consecutivas realizadas no ano seguinte à interrupção do uso de um pesticida resultem em valores abaixo do limite de detecção, o monitoramento desse composto poderá ser descontinuado, desde que não haja aplicação adicional, assumindo que o ingrediente ativo não será transportado para águas subterrâneas ou superficiais em concentrações detectáveis.

Tabela 1: Escopo analítico dos programas de monitoramento ambiental de pesticidas em áreas agrícolas e florestais.
MatrizPrograma de Monitoramento Semestral (PMS)Programa de Monitoramento Direcionado (PMD)
Água superficial (in situ) Temperatura, pH, Eh, oxigênio dissolvido, condutividade elétrica, turbidez Temperatura, pH, Eh, oxigênio dissolvido, condutividade elétrica e turbidez
Água superficial (in lab) Escopo completo da Resolução CONAMA nº 357/05, ingredientes ativos e principais metabólitos Escopo completo da Resolução CONAMA nº 357/05, ingredientes ativos e principais metabólitos detectados em concentrações superiores aos limites estabelecidos
Sedimentos Escopo completo da Resolução CONAMA nº 454/2012, pH, granulometria, ingredientes ativos e seus metabólitos Escopo completo da Resolução CONAMA nº 454/2012, ingredientes ativos e principais metabólitos detectados em concentrações superiores aos limites estabelecidos, testes ecotoxicológicos em água (Danio rerio (ABNT NBR 15499/2012) ou Pimephales promelas (ABNT NBR 15499/2022), Ceriodaphnia dubia (ABNT NBR 13373/2022) e Raphidocelis subcapitata (ABNT NBR 12648/2023)) e testes de toxicidade em sedimentos (Chironomus sp. ou Hyalella sp. (ABNT NBR 15470/2021))

Já o PMD tem como objetivo monitorar os pesticidas em águas superficiais e/ou sedimentos nos pontos onde suas concentrações forem detectadas acima dos valores recomendados, bem como em pontos a montante e em áreas de referência. Dessa forma, caso uma campanha do PMS indique altas concentrações de pesticidas na água ou no sedimento, uma campanha trimestral do PMD deve ser incluída entre duas campanhas semestrais para avaliar com maior frequência o comportamento e os efeitos desses compostos no ambiente. O escopo analítico do PMD, descrito na Tabela 1, inclui os pesticidas e seus metabólitos detectados em concentrações mais elevadas do que as previamente estabelecidas como críticas, além de parâmetros físico-químicos das águas e sedimentos, escopo completo da Resolução CONAMA nº 357/05 (BRASIL, 2005) para águas superficiais e da Resolução CONAMA nº 454/2012 (BRASIL, 2012) para sedimentos, e testes ecotoxicológicos em ambas as matrizes para averiguar se as elevadas concentrações dos pesticidas trazem efeitos deletérios aos organismos.

Os pontos de monitoramento devem ser distribuídos a montante e jusante das áreas mais impactadas, considerando critérios como taxa de aplicação dos pesticidas e proximidade com cursos d’água. Dois principais tipos de pontos de amostragem são sugeridos para monitoramento neste plano de ação: pontos de referência, os quais incluem os pontos a montante, em regiões onde as operações não afetem a qualidade dos cursos d’água; e os pontos de monitoramento, localizados dentro das áreas de operação. Recomenda-se a coleta em pelo menos um ponto a montante e outro a jusante da área mais impactada. Caso mais de um corpo d’água esteja potencialmente afetado na região monitorada, recomenda-se que o ponto a jusante seja alocado próximo à confluência entre dois corpos d’água.

Dependendo da avaliação conduzida, que deve considerar fatores como tipo de solo, características do aquífero e potencial de infiltração dos pesticidas, pode ser necessária a inclusão do monitoramento de água subterrânea neste plano de ação, mediante alocação de poços de monitoramento na região, contribuindo para a identificação de possível dispersão dos compostos químicos em outras matrizes.

Se concentrações de pesticidas forem detectadas acima dos valores considerados seguros por um ano nas campanhas do PMS e PMD, e se forem verificados efeitos ecotoxicológicos na água e/ou nos sedimentos em pelo menos duas campanhas de monitoramento no mesmo ciclo hidrológico, é sugerida a realização de uma Avaliação de Risco Ecológico (ARE) para derivar níveis alvo específicos do local (site-specific target level, SSTL) e definir estratégias futuras de gestão de risco na área. A Figura 6 ilustra o plano de ação desenvolvido para o monitoramento de pesticidas.

Figura 6: Plano de ação para o monitoramento de pesticidas.
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Este estudo de caso destacou a importância de programas de monitoramento ambiental robustos e flexíveis, essenciais para lidar com a persistência e mobilidade de contaminantes como o PFOS. Tais características exigem uma abordagem contínua de avaliação, além da integração entre monitoramento químico e testes ecotoxicológicos para melhor entender os impactos ambientais e desenvolver estratégias de mitigação eficazes. Nesse âmbito, fortalecer as políticas de monitoramento e gestão ambiental é fundamental para minimizar os riscos associados aos PFAS e garantir a proteção dos recursos naturais e da biodiversidade brasileira.

7. Conclusão e perspectivas futuras

A contaminação por PFAS em ambientes agrícolas e florestais representa um desafio significativo e multifacetado, com impactos duradouros nos ecossistemas, nas cadeias alimentares e na saúde humana. Esses compostos, conhecidos por sua alta persistência, toxicidade e capacidade de transporte, foram aplicados historicamente no manejo de pragas no Brasil, agravando os riscos ambientais e a saúde pública. A ausência de um programa nacional de monitoramento ambiental para PFAS e a falta de limites regulatórios seguros para solos e águas tornam o cenário ainda mais crítico, evidenciando a necessidade de políticas públicas robustas e coordenadas para enfrentar essa questão.

Modelos conceituais, acompanhados por programas de investigação, têm se mostrado ferramentas indispensáveis para compreender a dinâmica dos PFAS no ambiente e embasar estratégias de remediação e mitigação. No entanto, para que essas abordagens sejam eficazes, é fundamental que as estratégias sejam continuamente revisadas considerando novos dados gerados por programas de monitoramento, incluindo em áreas rurais. Além disso, para garantir uma abordagem integrada visando a proteção dos ecossistemas, os modelos devem considerar a substituição da sulfluramida por alternativas mais sustentáveis, se atentando aos efeitos dos novos produtos no meio, além da possível contaminação remanescente por PFAS. O desenvolvimento e a aplicação desses planos de ação são uma necessidade urgente, especialmente em ambientes tropicais, onde os impactos específicos desses compostos fluoretados ainda não são totalmente compreendidos.

Sabe-se que o cenário regulatório global para PFAS está em constante evolução, com uma crescente transição de iniciativas voluntárias para regulamentações vinculativas. Esse movimento envolve a ampliação do escopo regulatório para abranger toda a família de compostos PFAS, além da intensificação da colaboração científica internacional, promovendo esforços conjuntos para mitigar a disseminação dessas substâncias e assegurar a proteção ambiental e da saúde humana. Nessa linha, a transição para uma agricultura e silvicultura livres de PFAS no Brasil exigirá esforços coordenados de cientistas, agências ambientais, órgãos reguladores e a sociedade. Isso inclui o desenvolvimento de tecnologias analíticas mais precisas, a conscientização pública sobre os riscos associados ao uso continuado da sulfluramida e o fortalecimento de estratégias regulatórias e de mitigação. Essa abordagem integrada permitirá mitigar os riscos associados à persistência e bioacumulação dos PFAS de forma mais eficaz, garantindo a proteção dos ecossistemas, a segurança alimentar e um futuro sustentável para as próximas gerações.

8. Referências bibliográficas

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